quarta-feira, abril 29th, 2015

Resenha do disco “Causa e Efeito”, da banda Trampa

Trampa é uma banda que não começou pequena. Estabeleceu-se na cena brasiliense com um álbum pesado, uma turnê com um espetáculo orquestrado que virou DVD e uma participação ativa em iniciativas que procuram conquistar novos espaços para que bandas da cidade toquem. Os rapazes têm público cativo que responde bem à banda em suas apresentações. Neste novo trabalho, “Causa e efeito”, a banda se mostra um pouco diferente do seu primeiro CD. Os elementos de new metal que marcaram “Te presenteio com a fúria” deram lugar a um flerte maior com o rock num estado mais puro. A guitarra toma o espaço que era antes da cozinha com riffs potentes no lugar de levadas mirabolantes. O capricho ficou por conta das linhas de baixo, que procuram ao longo do disco dar mais traços ao som das músicas. As canções caem bem e têm uma pitada pop rock muito bem vinda. É um disco que soa simples e competente. A banda poderia ter ousado mais. Mas ousou na medida. Nada ali é despropositado ou desnecessário.

Pézinho na sala de estar

terça-feira, abril 7th, 2015

O rock’n’roll não quer sambar

 

Daí que o Seu Jorge falou em entrevista à Vice que não curtia rock’n’roll e que o estilo era “som de branco”. A partir disso, criou-se uma celeuma entre os expiadores da culpa branca e os ignoradores de racismo. A questão era raça, mas virou uma discussão de rockeiro chato (com o devido perdão do pleonasmo). Já que quando se aponta as estrelas para o pessoal, ele faz questão de olhar para o dedo, eu vou nesse ritmo. Hoje é dia de falar mal do rock nacional, bebê.

Inventaram de colocar Seu Jorge para falar de rock a troco de quê? A razão foi a versão em português que ele fez para “Life on Mars?” do David Bowie no filme “A Vida Marina de Steve Zissou”. Ironicamente, Seu Jorge foi colocado para falar sobre um estilo com o qual não se identifica pela mesma origem deste no Brasil. Todo mundo sabe que o rock nacional começou na Jovem Guarda com versões de rock estrangeiro. A princípio começaram chupando o rock americano, depois passaram para os sucessos da Europa. Sim, todo mundo da turma era branco. Tim Maia era o criolo mais próximo da turma, mas não teve o sucesso que o restante teve. Só depois, quando apareceu o soul, foi que ele despontou.

O rock nacional só foi ter uma cara própria na década de 1980. Aí não tinha desculpa, não era cópia, era o original. Foi a vez de Paulo Ricardo, José Fernando, Antônio Carlos, Sérgio Affonso e todos meninos com nome de filho de vó fazerem barulho. Não demorou uma década para o som tornar-se datado e revelar-se pretenciosinho. Uma letra de rock brasileiro é basicamente um tema de vestibular desenvolvido em versos. Paulo Francis dizia que o rock era jazz misturado com música caipira. Por aqui, misturaram jogral com seminário de faculdade. Ao invés de som e fúria, tudo que se tem é um esforço em soar inteligente. Sabe o menino pernóstico que senta no fundo da sala e tosse quando fuma? Ele é o rock brasileiro.

Daí Seu Jorge fala que não curtia rock’n’roll por ser som de branco. Sinceramente, eu ouvi rock’n’roll porque era o que me restava. Se não fosse Nirvana e o rock alternativo dos anos 90, eu teria sobrevivido a poperô e sertanejo (nem quero saber o que seria de mim hoje em dia depois disso). Só fui ouvir música negra (funk, hip hop, samba…) quando saí da casa dos meus pais. Vamos assumir: a gente via MTV, a gente tava pouco se fudendo para o Cirilo. Daí o cara fala que rock é som de branco e o que a gente faz? Lista uma série de rockeiros negros. Desenterramos Little Richard e mais uma dezena de crioulos roqueiros para tentar fazer das exceções a regra. Caras, depois de Buddy Guy, só deu branco no rock’n’roll. Nem o black metal tem um negão famoso… e eu digo isso aqui sabendo que algum metaleiro virjão vai vir aqui com alguma banda obscura que tem 1 (hum) integrante negro. O rock’n’roll virou essa coisa chata faz tempo. Esse Super Trunfo do gosto pessoal de cada um. Agora o rock’n’roll quer se fazer de santo. Satã morre de vergonha!

Vamos assumir que se o samba nasceu com o pé na senzala, então o nosso Le Cheval Break Light de rockeiro criado a Danette nunca saiu da sala de estar nem para pegar um copo d’água. Negar isso é no mínimo estúpido. Vamos relativizar para desenhar? Quantos perrengues vocês não passaram para serem rockeiros, para ter banda, para tocar pagando para tocar? Um monte, né? Pensa nessas mesmas paradas sendo negro. Ou seja: sendo imã de baculejo e estatisticamente quebrado demais para comprar um equipamento mais caro. E o pior, com todo mundo te olhando com cara de quem acha que você não deveria estar num show de metal, mas sim num pagode.

Eu não estou aqui para expiar minha culpa branca. Eu também acho que cagar regra sobre o ponto do macarrão me faz mais italiano. Na Espanha do século VI, os nobres se distinguiam daqueles que conviviam com os mouros mostrando as veias abaixo da pele branca. Daí o termo “sangue azul”. Nos Estados Unidos do século XXI, a ascenção da cultura negra na cultura pop permite que os rappers de lá ganhem em Grammys tudo que os judeus ganham em Oscars. Ser branco, “white guy”, é ser chato, normalzinho, pálido. Por aqui, pessoal acha irado colocar uma bandeira dos Confederados na arte da banda. No final das contas, temos o mesmo impulso bugre de nos impressionar por qualquer badulaque que permitiu aos portugueses escravizar os índios daqui. E ai de quem nos provar os mesmos jacus de sempre.

J’acuzzi

sexta-feira, setembro 26th, 2014

Mais que um formato de debate, uma experiência antropológica

Não se sabe da cabeça de quem que saiu a tal ideia. Ela nem parecia genial, apenas foi levada a sério num momento de cansaço de toda uma cadeia de tomada de decisões. Quando o país viu, lá estavam os candidatos à presidência numa banheira enorme devidamente em trajes de banho.

As mulheres escolheram pelo recato do maiô, os homens pelo aspecto bonachão de shorts samba-canção. As cores eram as dos partidos. Alguns foram feitos sob encomenda enquanto outros foram arranjados pela produção. Só os comentários sobre as roupas e corpos dos candidatos já rendiam um volume de repercussão momentâneo nas redes para sustentar aquele formato revolucionário de debate: o J’acuzzi.

Alguém falou em colocá-los numa banheira, outro alguém gostou da ideia. Virou piada ao longo do expediente e começou a virar conceito durante o happy hour. No dia seguinte já era projeto e só precisou do jurídico dar uma lapidada nele para colocar toda e qualquer merda dita pelos candidatos na conta deles. Todos concordavam que o nível dos debates estava muito aquém do que uma democracia merece. E a pior parte é que a tal democracia parecia querer que piorasse.

A ideia inicial era de uma luta na lama. Vulgar demais. Alguém falou em gel. Mais vulgar ainda. A vulgaridade já é televisiva demais. O que era necessário era a cretinice, algo mais próprio da política. Colocá-los numa arena com leões poderia favorecer alguns candidatos, ou os cristãos ou os não-cristãos. Uma emissora não poderia brincar com Deus nesses termos.

Praticamente todo mundo meteu o bedelho na ideia. E ficou assim: todo candidato era livre para criticar qualquer adversário sobre qualquer assunto a partir do momento em que conseguisse a palavra. Para ter vez, o digníssimo ou a digníssima deveria pegar um dos sabonetes deixados no fundo da piscina. O evento seria mediado por Luiza Ambiel (quem mais?) com assistência de Alexandre Frota. Este agiria em qualquer eventualidade que demandasse de intervenção física ou simplesmente ser completamente aleatório no caso de o experimento dar errado.

“O negócio…” – Frota disse e o Brasil ria por dentro – “…é xingar e tripudiar!”

“Vamos lá… peguem os sabonetes no fundo da banheira!” – os candidatos homens ficaram olhando para a musa da Banheira do Gugu esperando terem que se atracar com ela enquanto as candidatas desceram todas para procurarem os tais sabonetes.

Eis que as mulheres submergiram. Uma jogou o sabonete em um dos candidatos babões. Acertou a testa. Foi uma jogada política absurda para uma realidade absurda. A dica foi dada pelos marketeiros que quiseram entrar na brincadeira iniciada pelos produtores lá naquele happy hour.

“Não pode jogar sabonete!” – Luísa Ambiel bancou a monitora de colônia de férias com aquela senhora notável e virou um meme em 6 segundos. Automaticamente, militantes, opositores, reclamões e puxa-sacos viram naquele gesto substrato para n conclusões políticas. Todas completamente plausíveis e coerentes. Da censura ao ato de se jogar um sabonete à explícita influência de multinacionais do ramo de sabonetes na eleição.

A bronca fez com que todos se sentassem sérios nas bordas da enorme banheira. Vulneráveis em seus trajes de banhos, os disputantes ao cargo de presidente (ou presidenta) então se afundaram mais uma vez na água. Sobe um e joga o sabonete para o lado de um dos adversários, num sinal débil de que pretende dirigir a palavra a ele. Luisa Ambiel apenas acena com a cabeça para que ele use sua fala.

“Olha, eu acho que você deveria largar de ser um sem-vergonha. Você vem aqui com esse seu short de banho visivelmente marca-piroca para tentar usar de artifícios baixos para com o eleitorado feminino” – o diretor do programa assistia a fala na sala de switch imaginando o nível do debate político caindo abissalmente. Ele exibe um sorriso na cara. O político vilipendiado não se conforma em ser alvo de uma cantinela cínica ali diante de todos os seus outros adversários. Estes riam como hienas. O diretor, como um mico travesso.

O primeiro interlocutor só parou de falar quando já tinha cessado seu êxtase malidicente. Respirou fundo e sentou na água. Pelas regras do jogo, não havia direito de resposta. Outro candidato jogou sabonete no rumo de outro adversário. Mais uma vez subiu uma onda maçante de vilipêndios sobre outro político. A coisa parecia uma mistura de jogo da verdade e roleta-russa. E ali estavam os presidenciáveis participando daquilo.

Aquele rol de excelências parecia ainda mais patético. O espetáculo havia perdido vida. Foi quando os produtores resolveram usar uma arma secreta: o sistema de hidromassagem da piscina. Desenvolvido com tecnologia de ponta com bombas precisas e sensores sensibilíssimos, aquela maravilha da engenharia não se ocupava apenas de movimentar a água da piscina, mas sim de fazer bolhas de ar perfeitas de acordo com a posição das pessoas naquele ofurô político surreal.

A tensão da espera pelos sabonetes enquanto ouviam os monólogos detalhados em ofensas tapou os olhos dos políticos para as bolhas. Uma parte do público notou e a farsa infantil começou a ser percebida.

“Olha, eles peidam entre eles e não se dedam” – comentou um senhor raivoso por conta do atraso de sua restituição do IR em alguma postagem. Não era o suficiente. Com o mesmo sorriso ardiloso das peças de sua instalação infame, o diretor do programa resolveu jogar sujo e mandou a técnica abrir o resíduo de um composto sulforoso.

Um truque sujo jogado na justiça da aleatoriedade. Os candidatos enfim sentiram o cheiro do peido falso. Bastou que um deles visse uma bolha perto de um para que a traquitana de situações do script funcionasse.

“É o senhor que está peidando nessa piscina… está peidando como quando roubou dinheiro de emendas” – neste ponto o debate já tornou vexaminoso demais. Os assessores todos fizeram sinal para que a brincadeira parasse. Chamaram os comerciais e foram à sala de switch.

“Então… isso tem que acabar” – disse o assessor mais bundão.

“Sim, sim… podemos acabar” – respondeu o diretor.

“Mas como acaba?” – perguntou um outro assessor mais safo.

“Quem sair mais enrugado, ganha!”

#Apropriação

terça-feira, abril 29th, 2014

Não somos nada… você que é um babaca!

Ano passado tava lá sendo Guarani-Kaiowá como se tivesse tuitando, curtindo e compartilhando de tanga e cocar para toda aldeia global. Meses atrás, era Cláudia Ferreira da Silva, mulher negra, pobre, vítima da violência morta durante uma operação policial no Rio e aparentemente uma entidade que baixou em muita gente em tempo recorde desde seu falecimento. Nesse começo da semana eram todos macacos.

Não demoraram horas desde o surgimento da hashtag para haverem camisetas ilustradas e prontas para comprar na internet – “Somos trabalhadores chineses”. O ridículo da coisa só foi percebido quando Luciano Huck e Reinaldo Azevedo entraram na dança. Quando o factoide foi desmascarado como uma ação da Loducca, o ki-suco ferveu e todo mundo viu sua indignaçãozinha prostituída, fodida e mal paga.

Vou falar uma coisa sobre a cotação da tua comoção: ela nunca esteve tão barata. Mais que na época do rádio até, a histeria tem sido a tônica das redes sociais. O usuário de internet faz um escarcéu diante de tudo que “a mídia não mostra” assumindo uma onisciência dos meios e julgando-se livre dos títeres de seu próprio viés cognitivo. Vocês nem se veem dando IBOPE para colunista que você detesta só a troco desse thrill do debate procrastinador. Ao contrário das profissionais do sexo, quanto mais degradante mais barata fica sua atenção e sua disposição em repercutir.

O ser talvez seja a questão mais cabeluda e mais banal da humanidade. O ser, meus amigos, não é para qualquer comentarista de internet. Ele vai para além do clichê shakespeariano. É a faculdade mais absoluta e atávica a tudo de coisas a pessoas. Não é de se estranhar que ele soe no mínimo leviano na boca de geral. A fala popular sacrifica a verdade do verbo a troco de uma existência poética que no final das contas é só uma predicação pobre fruto de uma carência de identidade. E daí qualquer um torna-se qualquer outro assim como que mudando de roupa.

Pode até parecer que Platão estaria se revirando no túmulo diante disso. Mas, assumindo que as obras mais contemporâneas cheguem ao pós-túmulo assim como os romances de Emmanuel e Lucius chegam a nós, talvez o autor de “A República” estivesse ciente das reflexões de Martin Heidegger sobre o domínio da linguagem e a consciência do ser. É nesse âmbito que o egotismo típico da experiência discursiva na internet apodera-se das opressões alheias e o “nós somos” torna-se a única inflexão possível para estes celerados verbais. É mais ou menos como desembarcar nos Estados Unidos ou na Inglaterra e apenas saber o verbo “to be”.

Trata-se de um buraco mais baixo que o próprio analfabetismo funcional. Uma mostra do quão falsa é esta empatia emulada em hashtags e cartolinas no Instagram que não consegue ser nem articulada. Eu não sou Guarani-Kaiowá. Não tenho minhas terras ameaçadas por latifundiários e não vejo meu povo sofrendo um genocídio. Eu não sou Cláudia Ferreira da Silva e não arco com todos os ônus em se ser uma mulher negra e pobre. Destituído de qualquer coisa a falar de verdade sobre isso, o imbecil se apodera disso a seu bel prazer.

Esta última do #somostodosmacacos tem todos os detalhes sórdidos da idiotia leviana em que se dá esse processo de apropriação. Da noção popularesca da evolução humana como tendo origem nos símios à gafe racista que mais marca a apropriação de uma causa que não pertence a essa galera. O fato de ter sido uma ação movida por uma agência só mostra o como que a massa não articula uma voz, apenas segue alguma inércia em uma reação brusca e destrambelhada.

Vós sois burros e sobre vossa prepotência ergue a cretinice geral de alguma hashtag.

PS: Quanto a Platão… ele deve estar se lixando para a internet, na real.

Beijinho no cânone

quarta-feira, abril 9th, 2014

Só para os leitores de lombada de plantão

Desejo a todas inimigas vigilância epistêmica
para que não confundam relevância com questão de gosto
Postou na web é lei de godwin ou ad hominem
aqui dois papos não se cria e não faz história

Tenho uma noção rasa de ciência e faço isso de viés
Cobro cultura, no entanto eu não sou culto
Da academia quase não dá pra me ver
fico nas internetes sendo pseudo-PhD

Posso ser leigo, mas já tô pronto para diatribes
Keep calm e deixa de weltschmertz
O meu sensor de falácia já explodiu
Pega seus sofismas e vai para…

Os nossos bobos de abril

terça-feira, abril 1st, 2014

A história que se repete, primeiro como piada e depois como caduquice

Antes de mais nada devo desejar um feliz dia 1º de abril para todos aqueles que têm aquele ímpeto de desatarrachar a tampa do saleiro ou tocar a campainha do vizinho e sair correndo. Parabéns para vocês que fazem esse mundo mais tiozão e que sempre estão dispostos a comentar se o pavê é para ver ou para comer. Pode zoar a vontade hoje, mas não zoa no trabalho que RH não costuma ter tanto senso de humor – se você for do RH, corta o ponto da galera só pelo dia.

Poucos sabem, mas uma das origens do 1º de abril vem da solução para uma bagunça generalizada na França. Até o século XVI, o ano novo era comemorado em diferentes meses nas diversas regiões do país. Isso ocorreu até 1564, quando o Édit de Roussillon determinou a adoção do calendário gregoriano e a instituição do 1º de janeiro como sendo oficialmente o primeiro dia do ano.

Saindo da história e conhecendo o povo como o povo é, dá para imaginar as celeumas acirradas sobre qual primeiro dia do ano seria o correto. Afinal, se a Terra demora um ano para dar uma volta em torno do Sol e se as estações do ano se repetiam, era lógico que procurar por um ponto preciso de começo de um ciclo fazia todo sentido.

Revoltados com a fixação de uma data oficial para a melhor implementação de um ano fiscal ou de controles burocráticos diversos na administração pública do reinado de Carlos X, alguns franceses teimavam em comemorar o dia 1º de abril como sendo o ano novo. Eles lá tinham suas razões. É certo que a primavera seja uma estação muito mais agradável para se ir à praia pular ondas e lançar oferendas de queijos e vinhos para Iemanjá – “L’iemanjà, la reine de la mer”, para eles. Além disso, havia a tradição arraigada de cada lugar e não podemos deixar de sermos empáticos com aquela realidade naquele dado espaço e local. Imaginem se o Carnaval é transferido por aqui para o 1º de janeiro e o ano brasileiro não começar após a Quarta-feira de Cinzas. É quase a mesma situação, só que com cachaça e queijo minas.

Os revoltosos não fizeram marchas e nem protestos. Nem se vestiram de branco para marcharem pela Champs-Elyssés pedindo paz e ano novo. Mas o que fizeram a eles virou uma tradição muito maior. Franceses mais espertinhos e metidos a engraçados forjavam festas de ano novo que não existiriam só para verem seus compatriotas aguerridos do calendário andarem no barro das ruas sem esgoto com suas melhores roupas para nada.

Ali, no século XVI, o primeiro de abril não era apenas uma data de confraternização da galhofa. Aqueles pobres coitados estavam tendo o reforço negativo necessário para a compreensão de uma realidade institucional. O ano novo não começava mais em 1º de abril e nem mais em nenhuma data que não o 1º de janeiro.

Nós temos nosso próprio 1º de abril aqui no Brasil. Uma data triste e filha da estupidez que faz questão de ter seu aniversário comemorado um dia antes para não cair no ridículo que lhe deveria ser impingido. Hoje, o Golpe de 64 completa 50 anos. Não foi ontem, é hoje. Este é um primeiro passo para adestrar algumas cavalgaduras que não possuem muito rigor com a história e que afrouxa fatos escondendo documentos e registros de gente que foi morta e torturada nas mãos dos aparelhos da repressão.

Os militares tomaram o poder e prometeram reestabelecer a democracia o quanto antes. Demorou 21 anos para um civil ser eleito de maneira indireta e mais 25 para ocorrer uma eleição direta. Tempo suficiente para um retardo em diversas esferas sociais e políticas do país. Assim como os bobos franceses saiam pelas ruas enlameadas para festas que não existiam, um discurso saudosista corre solto como se a autoridade sumária da ditadura tivesse garantido ao Brasil um período próspero e frutífero.

É muito fácil defender um poder supremo em lugar dos recorrentes desacordos nas resoluções de problemas de interesses comuns. Por inocência ou por desonestidade intelectual, confunde-se os desmandos e abusos dos políticos de hoje com uma utopia fardada e disciplinada que teria irradiado decência em um país de proporções continentais. Meio século depois, os elefantes brancos erguidos pelos militares e a farra de estatais onde o clientelismo foi exercido tanto quanto sempre foi em qualquer governo brasileiro são travestidos pela ideia propagandística de Brasil Grande que era o mote dos governos da época.

Frente aos fatos sociais, econômicos e políticos, sobra apenas o subjetivo. O tal medo de um levante esquerdista no Brasil que tomaria o poder por aqui e alinharia automaticamente o país com a então União Soviética. Ora, se os comunistas estavam tão próximos de dispararem um golpe por aqui, como que dois generais de pijama articularam suas tropas e deram início ao golpe sem uma sabotagem sequer? Talvez os comunistas daqui não fossem tão espertos ou talvez estivessem já agarrados à burocracia antes mesmo de tomarem o poder. Ou talvez, a carta da revolta popular esquerdista seja recorrentemente lançada na história da república brasileira seja no Governo Vargas, na eleição de 1989 ou atualmente em páginas de Facebook que tecem conspirações sobre como o comunismo finalmente tentará chegar ao Brasil. A revolta popular é praticamente o anti-Messias dessa galera e por isso mesmo a participação do povo nas tomadas de decisão soem democraticamente mefistofélicas.

Há 15 anos era infame qualquer apologia ao golpe. Não se via tanta gente teimando em chamar uma tomada de poder que calou todas as instâncias e interfaces democráticas de revolução. Os saudosistas da ditadura são apenas isso, ridículos. Nem completamos 30 anos de democracia reestabelecida e qualquer alusão a um estado monolítico é um argumento paleozoico. Se for para ser comemorado, o golpe de 1964 merece seu lugar na história: o dia 1º de abril. Fica aberta a malhação do Mourão – ou do Ulstra – enquanto não retiram o nome dos notáveis do regime de logradouros, escolas e pontes.

#partiupia

sábado, novembro 23rd, 2013

A internet foi até a pia… e a pia foi para a internet

Eu comecei quando percebi a perda de tempo que é a internet e o quanto a minha casa era um pardieiro. De fato: as pessoas não lavavam a louça. Eu perdia horas argumentando sobre a quadratura da bola com qualquer imbecil que aparecesse. Mas todos meus pratos estavam sempre sujos.

Resolvi mudar. Enfiei as mãos na água fria da torneira e encarei minha louça suja como quem olha para o abismo por tempo o bastante para ele olhar de volta e combinar um café para mais tarde. Me senti autêntico e mais livre de um mundo mais ou menos preocupado com a opinião alheia. A bagunça de panelas, talheres e pratos tornaram-se mais vívidos para mim de uma forma que só a necessidade desenfreada de fazer de qualquer experiência uma epifania pode emular.

E em se fazendo qualquer coisa fora da internet, tudo se posta. Tudo o que acontece na sua vida acaba sendo passível de ir para alguma rede social. E foi aí quando eu tirei o primeiro #louçagram. Afinal, qualquer idiota pode postar um prato com comida. Resolvi ser irônico, mas daí vi aquele fio de sinceridade fundamental em mim mesmo que só se pode ter em vídeo de gatinhos ou de crianças de pais corujas.

Daí tomei gosto pela coisa. Mas não bastava postar apenas o prato. Se era para publicar algo referente a lavar louça, tinha que ser mais legal. Foi daí que tirei duas fotos: uma da pia suja e outra com a pilha limpa. Cinco minutos de Photoshop e eu fundi as duas. Ficou bem legal no Instagram, mas foi no Facebook que todo mundo copiou a imagem e colocou altas frases. Umas mais mongóis que as outras, claro.

Quando eu vi apareceram vários idiotas postando uma baixela rasa, uma panela de teflon ou apenas um abridor de vinhos. Daí outros resolveram tirar onda. Lavavam aqueles multiprocessadores enormes. Gravavam vídeos lavando peça a peça em menos de um minuto.

Cambada de punheteiro. Aposto que é tudo filho de vó que aprendeu a lava louça agora. Se você for na cozinha deles vai ver aquele monte de detergente com cheiro de fruta. Uma inhaca doce de sandalinha de irmã mais nova. Tira a água quente da pia deles para ver se eles encaram uma panela de feijão queimado. São amadores…

E daí eles ficam discutindo quais são as melhores espumas? Qual palha de aço é de esquerda e qual é de direita. O cara mais decente que vi foi o que postou a faxina da própria república. O sujeito sozinho encarando a cozinha usada pelos colegas e abandonada para as férias. Ele nem aparecia no vídeo. Só as mãos agarrando pratos, garfos e panelas e esfregando com a raiva de quem lava louça de verdade. Enquanto isso seus amigos postavam os produtos milagrosos que seus pais compraram em alguma viagem para a gringa.

Banalizaram o lavar louça. Uma coisa tão simples e corriqueira. Qualquer imbecil posta #partiupia e se limita a arranhar a única taça que tem. As marcas ficam mais aparentes ainda quando ele coloca a parada contra a luz. É patético…

Pelo menos não é pior que os imbecis que ficam postando fotos deles com enxadas em lotes baldios.

Patroa é a mãe!

quinta-feira, setembro 19th, 2013

Todo dia ela faz tudo sempre igual ou é você que é o mesmo moleque de sempre?

 

“É a patroa!” – o telefone toca em cima da mesa do bar e o cara atende na base do “aham, amor”. Os amigos ficam segurando as risadinhas enquanto ele faz caretas e vira os olhos como alguém enfadado por estar ouvindo a mesma ladainha. A cena pode parecer infantil, mas ela é protagonizada por caras dos 20 e poucos até que a morte (ou o divórcio) os separe de suas matronas.

 

Colocar o pau de macarrão na mão de uma mulher é algo tão machista quanto mandá-la pegar uma cerveja com um tapinha na bunda. Primeiro, por naturalizar e outorgar de maneira praticamente categórica o lugar da mulher como mera administradora do lar, este ambiente alheio aos interesses masculinos. “Se tem que lavar, não é da minha conta!”, diria alguém sobre a casa, as roupas ou até mesmo os filhos.

 

Em segundo lugar, esta posição de tirana do lar não traz nenhum poder para a mulher. Muito pelo contrário: agora ela é uma mulher dominadora, controladora e muitas vezes histérica. Diante disso, o homem torna-se um falso cativo. Um pobre coitado que mal pode tomar a sua cervejinha com os amigos.

 

Quando os dois estão juntos em público, a coisa piora. A mulher torna-se a censora do marido. A cada pequeno exagero – um quitute a mais que ele pega, um copo a mais que ele bebe – o garotão olha para a esposa como se aquilo fosse lhe render castigo em casa. “Duas semanas sem assistir futebol”. Se o horário avança, ele já fala que a “patroa” tá querendo ir para casa. A mulher não apenas lava, passa e cozinha em casa. Ela também é o aríete de uma saída que poderia ter sido à francesa quando eles saem a passeio.

 

Daí, quando ela veste a carapuça que lhe foi imposta e se vê na necessidade de reprender alguma atitude do marido, a coisa pesa – para o lado dela. Todos olham para a mulher. Em especial as outras mulheres, que acabam tendo nela uma mulher mais “controladora” que elas. Dentro da lógica e do protocolo sexistas, esta é a hora de ficar quieta e bancar a boa esposa.

 

O casal discute e o placar é sempre o mesmo. O homem pode comer com a mão se quiser que terá razão sobre a mulher, que será uma barraqueira. “Não precisava daquele escândalo!”.

 

Certamente não precisava. Mas o homem precisava de uma governanta como esposa? Todos olham para o homem como se ele fosse um menino com um estilingue no bolso de trás. “Boys will always be boys”. Deste modo, precisaríamos de ter mães para o resto da vida. Eu não gostaria disso para mim. Vocês que lidem com o Complexo de Édipo de vocês!

 

Não se fazem mais playboys como antigamente

sábado, maio 4th, 2013

Eu não sei quando inventaram essa onda de levantar a gola de camisas polo. Sei que detesto. Parece coisa de moleque bobo querendo parecer personagem de desenho animado. Eu sei que não entendo de moda. Eu sei que algum adulto tem que supervisionar essa galera aí ao se vestir.

Quando eu era moleque, os playboys vestiam-se alinhados. O ridículo deles estava no fato de irem a um churrasco de calça social e camisa e ficarem falando alto em seus Tijorollas para todo mundo vê-los falando qualquer merda com o “cumpadi” dele do outro lado da linha. Aqui em Goiânia isso ainda tinha aquele elemento country e os agroboys iam para tudo quanto era lugar com seus chapéus e gritavam “Ê diacho” para qualquer coisa. Algumas festas eletrônicas chegaram a banir a entrada de gente com camisa de flanela xadrez, mas a medida caiu depois que alguns moleques skatistas foram barrados.

Eu nunca me imaginei tendo nostalgia dos playboys de antigamente. Mas é. É mais ou menos como assumir que os Hanson não eram tão medíocres quando o Justin Bieber. Doeria no meu ego assumir isso se eu ainda tivesse 15 anos. Mas o que eu posso fazer frente à realidade a partir do momento que se torna conscientemente patético negá-la? Zoar, né?

Eu realmente me impressiono no quanto a playboyzagem atual não tem o mínimo senso para se vestir. Meu problema não é que eles agridam minha visão com suas camisas coladas de tons limitados ao fluorescente ou pastel. Meu problema é que a morte do opaco e a padronagem do tamanho de roupas de homem tornaram-se anormais. Se eles querem vender camisetas tão colantes, por que não oferecem também uma capa para eu brincar de super-herói? Comprar roupa para mim é uma merda e eu nem tenho o manequim para ir comprar roupa na Vargas. Eu só não quero parecer ridículo e esse é o meu problema.

O terror mesmo é na hora de comprar perfume. É incrível como os perfumes masculinos adocicaram no decorrer dos anos. Os cítricos sempre existiram porque sempre existiu canastrão. Mas a adição de tons frutados nas fragrâncias novas me leva a crer que os fornecedores das grifes de perfumes destilam Melissinhas e aqueles outros calçados com cheiro de tutti-frutti que existiam quando éramos crianças.

O que eu vejo é um processo de emasculação do playboy. Em algum momento, depois que a tal da gola polo rosa passou a ser um símbolo de “olha como eu não tenho problemas de vestir rosa”, o babão resolveu investir em moda. O que no referencial dele é sempre se vestir da maneira menos discreta possível, o mais parecendo com um cabeleireiro paquerando no shopping em feriado e esforçando-se para manter a pose de machão.

Sei que soei homofóbico e peço desculpas se ofendi alguém (não, não foi a intenção). O que eu quero deixar bem claro é que no subterrâneo do cognitivismo do playboy, moda sempre vai ser coisa de viado. Vestir-se bem para ele é usar algo que o force a deixar claro que ele é homem apesar das roupas coladas e chamativas.

Só a neurose de não parecer gay explica as roupas para homens estarem cada vez mais gays. Isso é irônico? É uma neurose e o fato de ele cair naquilo que teme não passa de fava contada. Sugiro que em nome do empirismo aponte algo de ridículo na roupa de um deles. Note como a primeira resposta é algo como “isso não é gay”. É o enrustido de Pavlov…

A marcha mais simpática da cidade

domingo, maio 27th, 2012

Longe da misandria e da histeria, a Marcha das Vadias em Brasília mostrou que uma cidade de mulheres mais simpáticas só depende do respeito dos homens

Os pelos pretos e delicados sobre a barriga branca e macia me fizeram pensar nas aulas de Ciência da 6ª série. O professor dizia que a Linha Alba – este caminho peludo que temos até a virilha – era exclusiva dos homens e aparecia durante a puberdade. Pois lá estava ela numa barriga que ostentava um feto de 11 semanas e um protesto pelo direito ao aborto escrito com batom.

Podia ter Marcha das Vadias todo dia em Brasília. Muito mais mulheres bonitas e simpáticas que em qualquer festa de qualquer boate playboy. Mesmo gritando a plenos pulmões por uma América Latina feminista, não havia ali a histeria e a misandria que o senso comum apregoa tão tacanhamente à utopia das amazonas.

Acredite: as brasilienses, essas mulheres famosas por sua indiferença e frieza, nunca foram tão cordiais e simpáticas quanto na Marcha das Vadias. Longe delas se comportarem como donzelas rococós, respondendo educadas e mimosas a todo e qualquer gracejo canastrão. É exatamente este tipo de etiqueta travestida de recato que elas não querem mais. Falam que as brasilienses são arredias. Não são menos que qualquer mulher que tem o braço tomado toscamente e sem licença em qualquer festa.

Brasília é uma cidade de pessoas fleumáticas. Certa vez, meu braço deslocou enquanto carregava uma mala e soltei um sonoro “Puta que pariu” – todos os perdões, garotas. Um sujeito que passava apenas virou-se e ficou me encarando como se eu estivesse comendo com a mão. Passei bem meio minuto tentando explicar o ocorrido para o blasé de jornal debaixo no braço. “Por favor, pode me ajudar aqui… meu braço deslocou!”. Nenhuma resposta além do olhar inócuo. Eu estava com meu ombro uns 15 cm fora do lugar e aquele cara só me olhava panoramicamente.

É uma coisa da cidade estranhar os estranhos. Alguns podem até chamar isso de hipocrisia, já que se trata de um lugar tão singular quanto Brasília. No dia anterior à Marcha, tomei um ônibus na W3, uma das poucas ruas de Brasília com nome. Sentada quase no fundo, uma garota me retribuiu o olhar através de seus óculos estilosos. Uma queda de cabeça num “oi” cordial e discreto. Sentei e prosseguimos a viagem. Não sei onde ela desceu.

“Isso é absurdo! Como assim alguém cumprimenta outra pessoa que não conhece?” – disse uma amiga quando contei a cena. Tipicamente, brasiliense. Também gosto da opção de não ser obrigado a responder a toda e qualquer pessoa que vem a mim. Apenas acho que qualquer gesto de cordialidade pode muito bem ser retribuído.

Claro que uma coisa é você olhar uma mulher e ela olhar de volta. Outra e você pressupor que a simpatia dela é um mole que ela está te dando. Isso é imbecil. O próprio flerte não deveria se apoiar em uma suposição tão bamba. Quando alguém é gentil com a gente, qual a lógica em sermos inconvenientes?

O que as garotas da Marcha das Vadias critica é fundamentalmente isto. Por que as mulheres só podem ser encaradas como contraparte sexual? Por que os papéis que elas conquistaram na sociedade ainda são tratados como meras permissões de um paradigma que continua sendo machista? “Ah! O mundo mudou, as mulheres têm seu espaço”, dizem os porta-vozes do senso comum, estes catedráticos da ignorância mediana.

Que espaço é esse em que ela tem que agir de tal forma para não ser julgada? Que sucesso é esse em que ela se pergunta se seu trabalho foi bom mesmo ou seu colega ainda insiste em tratá-la como a menininha que o ensinaram que ela era? Que porcaria de lógica é essa que uma mulher não pode ser simpática, correndo o risco de ser incomodada ou até mesmo estuprada?

A cretinice vigente castiga o nome “vadia”. Dizem que quando estas garotas falam “somos todas vadias” estão desonrando todas as mulheres. “Desonrando”, esta é a palavra que usam. Parece que dizem “deflorando”. Pobres donzelas do mundo que acabam se ferrando por conta de um bando de molecas arruaceiras.

As brasilienses da Marcha das Vadias são isso mesmo. Molecas arruaceiras. Pintaram-se e foram berrar na Rodoviária do Plano Piloto. Mas acredite, eu nunca vi as brasilienses tão simpáticas e felizes. Não era porque estavam vadias, emperequetadas e até mostrando os peitos. Era apenas a segurança delas poderem ser mulheres dentro daquela comoção. Caminhando em meio à turba de mulheres brasilienses protestando pelo feminismo, eu, homem, podia pedir licença sem encarar um rosto enfadado e antipático, tido tanto como sendo típico daqui.

Quem pode opor-se a isto? Elas não vieram para castrar os homens, mas sim para sacrificar as virgens que são obrigadas a ser. Como na música do Caetano, são tigresas que querem poder mais que os leões e ser o que quiserem. Mas sem terem que inventar um lugar.